A baldeação da primeira chuva














Em cinquenta dias, estarei preparado para te olhar nos olhos, sem me esquecer de teu nome. Baldeei demais de casa em casa, desde anos atrás. Virei nômade. Não guardo mais nomes, lugares. Não guardo mais nada. Baldeei meus olhares para o fim das coisas. E se diz, também, que, perto do fim, lembra-se de tudo. Então, poderei te olhar nos olhos, se for assim. Em cinquenta dias. Esqueci-me de todos os hai kais. No entanto, lembro-me de trechos de Guimarães. Não, não estou enganado. E de um pássaro verde que me acorda, de repente. E me lembro da primeira chuva, da primeiríssima. E da primeira alegria ardendo debaixo da primeira chuva, sob a laje do dia. No fundo, o que eu guardo em meu caminho, são as mesmas coisas: as que brilham. A leve a primeira e leve alegria quente, dentro da chama breve. Os cílios da namorada que não tive. A sombra fecunda de uma nuvem antiga, sobre a neve andina. Lembranças que carrego, como exaustas mochilas, em minhas andanças. Melhor o dia em que não me sobre nenhum espasmo de lembrança. Ou sílaba gasta.













Marcelo Novaes