A Canção Inédita de Omar Khayyam














Eu sou Ghiyath Al Din Abul Fateh Omar Ibn Ibrahim Al Khayyam, filho de um fabricante de tendas. Nascido no século XI, vivendo parte do meu apogeu no décimo segundo, como poeta, matemático e astrônomo. E grande bebedor de vinho. Alguns me tomaram por místico. Alguns tomaram vinho comigo. Sinceramente, não sei o que faço neste casarão no século vigésimo primeiro. Não entendo, de Allah, os desígnios. Saio-me melhor estabelecendo cálculos equacionais, cúbicos, de parábolas em círculos. E em corrigir calendários. São três os pavimentos. O do meio não me é de todo estranho: tem um ar de caserna. Soldados e bêbados. Algumas pessoas com talento para esportes que desconheço. Há discussões enormes no campo do preparo físico entre aqueles que quase caem ou dormem. [Allah deve ter suas boas razões para mostrar estes que, sentados, mal se mantêm...]. Toca a campainha do casarão. É meia noite, hora das campainhas. Estou num corredor em frente à porta, com um jogador de rugby, que em meu corpo de apóia. Ele é viciado em álcool e ecstasy. Ele me diz que há um encontro marcado à meia noite. Que essa é a hora dos encontros. Ele me diz que haverá uma entrega de flores, mas não sabe pra quem. Ele me diz que acha que é pra ele a entrega. E em meu ombro chora e se esfrega. E assoa o nariz. Ele está comovido com a homenagem que antecipa para si. E me oferece um comprimido. Allah deve ter boas razões para me tirar de meu próprio tempo para acompanhar tudo isso. A porta se abre. Aparece diante dela uma cabeça estranha, inumana. Parece erguer-se do chão e o chão erguer, como se o mar encapelasse. O mar. O mar encapelasse. Fico imaginando toda a casa se erguer [em todos os seus andares] enquanto o eco do mar faz onda em meus ouvidos-olhos. Tento convencer o jogador de rugby que não se trata de flores para ele, dissipar suas estranhas dúvidas. E as minhas são mais estranhas. Aquilo se ergue diante de mim [eu que temia o mar remoto]. Mas sua natureza não é água. [Allah que me proteja]. Toda uma convicção de invocação em mim surge [e surge em mim], enquanto aquele Ser se ergue. Sua natureza é o raio: azul e cinza-prateado. Quem abriu a porta sai à rua. Eu também saio. Ele está imantado ao Ser que lhe aponta um dedo-garra, e se ergue no espaço. O homem também tem a mão apontada ao Ser, e se ergue, imantado Àquele, preso num circuito magnético. Ascendente. Espiralado. Raios azuis-elétricos cruzam o espaço entre homem e Ser, Ser e homem, qual produto do Laço que agora os une. Toda a Cena me faz lembrar a Criação de Adão, de Michelangelo. Outra versão de Deus feita por homens blasfemos: cristãos, judeus. Que Allah me poupe de ler o livro errado. Ou de saber Seus Segredos. [Vejo-me um pouco naquele que foi imantado: estranho sentimento. Temo atrair sobre mim e sobre a casa todos aqueles raios. Por que Allah me fez testemunhar tal Fato e Feito que deveriam permanecer Secretos?!]. Estou lá fora em parte, no imantado homem. Mas tenho muito o que fazer, aqui dentro do casarão medonho. Curioso sentimento. Esclarecer a todos a natureza dAquele Ser que só conheço um pouco. [Allah escolhe um vesgo no meio dos cegos. E um cego no meio dos loucos]. Calculo todas as minhas responsabilidades de astrônomo, matemático e poeta semi-impuro, neste século de todo degradado.[Nem vinho bom há para servir-me, de fato, no casarão do amor medonho...]. No terceiro piso encontro homens empanturrados de mau vinho e comprimidos, enfileirados em poltronas. Empunhando armas, com miras mais que prejudicadas. Não sou militar [sou filho de fabricante de tendas, em meu tempo], mas o ridículo sei identificar: em qualquer Tempo ou Lugar [ que pareça me importar]. Sinto-me investido da autoridade de um general reformado e antigo, diante daquele bando de insanos ecstasyados em seus planos. E faço um gesto amplo como o relâmpago que ainda diviso em meu eco íntimo [no olho, na memória, no ouvido], que nada quer dizer mais do que o óbvio [para mim, não para esses aquartelados]: “baixem as armas, seus heróis bastardos! Isso não adiantará de nada!” [Oh, Allah..., poupe-me dessa horda...!]. O jogador de rugby quer me acompanhar, chorando perdidas flores. Mulheres perdidas querem me apresentar quartos inúmeros como labirintos, para que eu me encontre, enfim, nesse Tempo. Em seus ninhos macios. [Ai de mim! Tenho de seguir sozinho]. O chefe do bando armado nas poltronas de viagens extasiantes quer me dar segurança em minha tarefa mal delineada. Diz vislumbrar estratégia segura e certa. [Ai de mim, que preciso caminhar em paz, a essa corja toda pondo um término e um fim e um término...]. Desembaraço-me desses tantos, e chego ao porão. Uma caixa e um bilhete com a explicação: 1) o Ser foi invocado e apareceu. 2) A caixa e a carta vêm de onde ele veio. 3) Há quarenta e nove desses seres [sete vezes sete, número inteiro], mas apenas três manifestos no mundo hodierno. O mais famoso deles nasceu em 18 de maio de 1048, em Nishapur, Pérsia, vindo a falecer em quatro de dezembro de 1131. Ele se chama O Mar O Mar O Mar Omar Omar Omar O Maro Maru Marut Marut O Marut O Marut. Eu me arrepio só em dizer e pensá-lo, pronunciá-lo. Essa plasticidade ondulante que, do som faz levantar imagem [memória do Mar], até alcançar meu próprio nome, até alcançar o nome de um Anjo do Alcorão que trouxe à terra alguns segredos. E sou eu! Talvez os Maruts pulverizados por Indra no útero de Diti, que choravam em sete vezes sete pulverizações, fazendo ruído. Até deles Indra se compadecer dizendo: ma rodh, ma rodh [não chorem!], e chamar-lhes como seus auxiliares. Eis o segredo do casarão! Eu sou hindu e muçulmano ao mesmo tempo. Homem e Deus pulverizados, ambos! Imantador e Imantado! Ator e Testemunha! Não me contenho e temo abrir sozinho tamanho espectro de novos textos de antanho que, se explorado até o fim, consumiria [e me consumiria] este século inteiro no qual me lanço [e me lançou o Deus do Alcorão, qual Gênio Bom & Mau & Zombeteiro]. Preciso dividir com alguém essa lição. Preciso guardar o que aprendi, e escolher quem me possa ouvir. Senão me parto nos outros eus perdidos por aí. Pedaços de Homem e Deus e Anjo que não recolhi. Talvez a taverneira... Siduri é seu nome. Está também escrito aqui. [Allah, por que tão pouco no Alcorão está Dito?! E só se revelam as Escrituras, para Cada Um, em números fracionados?! Sou Eleito, sou Maldito, ou sou Ambos?!].












Marcelo Novaes