Cavalo de vento















Nem uma pedra no lugar. Nenhuma. Nada mantido como estava. Cogitação. Vida nublada. Nenhuma telha por onde escorrer a água. Nenhuma trilha nova ou velha. A travessia foi dura. Foi árdua. Comi tortillas e feijão, na véspera. Namorei rapazes mais jovens do que eu. Também tive namoradas. Fui religioso. Fui ateu. Soube subir em cavalo e égua. Soube enfrentar tirano. Com as minhas mãos. Com espada. Com facão. Soube celebrar manhãs de julho. Nunca errei o caminho de casa. Agora, tudo está refeito: o lar, o espaço, o tempo. O lar, o espaço, sobretudo. Do tempo, já perdi noção. Já não há tortilla, pra comer. Nem tequila, pra me trazer conforto. Nenhuma pedra parecida com as de minha casa. Aliás, recém-construída. Nenhuma música que eu distinga, em alguma vila próxima. Nenhum poço fundo e sem água, onde repique o ferro atirado. Nada do tempo de meus velhos modos. Nenhum céu. Nenhum pássaro. Cogitação. Vida nublada. Comida estranha pra satisfação da fome. Nenhuma casa grande, nenhum barraco. Às vezes, me pergunto se ainda estou acordado. Às vezes, me pergunto de onde venho andando, pelos trechos dos últimos sonhos dilatados. Nenhum templo. Nenhum sino tocando. Ninguém no alto da pirâmide me acenando. E diziam árdua a vida de um asteca. Mais árdua, a travessia. Mais árduo, montar no cavalo de vento. Mais ásperas, as pedras em brasa, usadas como travesseiro. Nenhuma água a escorrer, pra precisar de telha. Nenhum amante. Nenhuma companheira. Nem uma mão pra me dizer “até”, “além”, “ali”, “lá longe”. Nenhuma voz que me faça lembrar um mugir. Nenhum luzir no alto. Nenhum trovão. Nenhum afago de sombra. Nenhum inimigo, pra precisar de arma. E diziam árdua a vida de um guerreiro. Mais árdua, a travessia. Mais árduo, montar no cavalo de vento.













Marcelo Novaes