Deixa eu afagar tuas saudades de Deus com minhas mãos de prata. Soam talvez como galhos de árvores, mas são completamente mãos de afagar saudades. As terras soam também desabitadas, ainda que minhas mãos as habitem. Ainda que meu rugido esteja sempre presente. Ainda que eu solte essas minhas mãos em plena escalada, em plena subida da íngreme colina de pedra. Ou de prata. Ainda que eu as solte pra me descobrir como anseio gráfico sem qualquer apoio. Livre no espaço. E me descubra sendo respirado antes de me respirar. Só por isso, já posso afagar teu suspiro e tuas saudades, porque entendo ambos. Deixa eu afagar essas saudades com essas mesmas mãos que me permitiram escalar e abrir mão no meio da encosta. Deixa e deixe-me encostar uma delas nas tuas costas, feitas da minha costela. Deixa que ela, a mão de prata, represente pra você parte daquele primeiro sopro que nos viu e que nos fez nascer. Eu sei o quanto te dói andar parecendo não reconhecer nada, nenhuma pedra, nenhum lugar. Nenhuma encosta para escalar, ou se perder. Nenhum som que te lembre a antiga música. Nem um uivo ou laivo de fala de nosso conhecido Deus. Deixe que uma de minhas mãos de prata [uma ao menos], tome conta disso. Depois, dormiremos.
Marcelo Novaes