Há muito menos cabelo agora, do que havia a cinco anos. Há menos febre de experimentar as noites. Todas têm a mesma cor. Com ou sem luas cobertas de névoas. Não há muito o que dizer sobre nada. Há pânico nas fazendas. Há fugas pelas estradas, de terra ou asfaltadas. Todos os homens sofrem. Todos voltam para os seus vales e ardem em desejos tolos, enquanto se incendeia a noite. É muito curioso que nunca acordem. Que não pressintam quantos mundos se atritam como bolas de ferro, em abafado recinto. Eu não me nego a vê-los, a dar-lhes um breve aceno, antes que voltem para seus vales privados de neve. Há mais mundos imbricados [e há mais infernos], do que cem sóis juntos. Todos os homens sofrem. Sobretudo os que estão rindo. Estes sofrem mais. Pois nem estão sabendo. Em algum lugar ouvi dizer que há a febre do feno. Em outro, as aves estão morrendo, passando suas febres aos homens. Há tantos mundos guerreando juntos, enquanto as noites permanecem noites, quase como calabouços. Disseram-me que a chuva agora é ácida. Disseram-me que as palavras doces são mais raras, como aves. Ou insinceras. Disseram-me que as maquiagens se desmancham em lágrimas de lembranças tristes. Todos os homens e mulheres sofrem juntos, cada qual em seu compartimento. Cubículo de vaso sanitário e sonhos privados. Ridículo. Onde guardam seus tesouros. E as noites seguem da mesma cor.
Marcelo Novaes