Viver a vida no fragmento. Viver a vida no ferimento. As imagens brotam por si mesmas, são consteladas, são chamadas à vida, atravessam feridas que viraram janelas, antes fechadas. O seu fundo se deixa entrever no recorte, no corte fundo. Há beleza no tropeço que prepara a colheita. O pecado original é ter pressa do fruto pronto, ou sonhar fruto perfeito sem trabalho. É não amar o ato de plantar regar e, ao invés, pretender atalho. Ou pior: querer fruto roubado. Esses os dois principais pecados, que expulsam o homem do jardim e o deixam de lado. Amar cada etapa cada labuta como se fosse a própria meta, é a saída da emboscada. Viver a vida no fragmento. Viver a vida no ferimento. Saber da vida, a cada tempo, só a porção devida.
Marcelo Novaes