Inclinado














A minha própria experiência me pôs embalando uma criança: para trás para frente para trás para frente. Uma criança sublime diferente, que me surgiu não sei bem de onde. E eu me balancei como um joão-bobo, como um brinquedo no qual, de repente, me virei. Tornei-me um clown, contorci-me, me ajeitei. Sobretudo, pelo empenho em carregar tão divino bebê. Que nunca pari. Nem esperei. E tive que lutar pra me equilibrar no tabuleiro. Havia casas brancas havia casas pretas. Havia fendas abertas havia crateras imensas. E a recomendação expressa de não me mover por críticas nem promessas. Segurando a criança, embalando a criança, simplesmente. Aprendendo a grandeza do Bobo-da-Corte. E em que consiste? Na maneira de responder às indagações. A um "como estás?", se responde com um "Salve a Liberdade". A um "tudo bem?" se responde com este: "nunca mais, aqui não estou mais eu mas outro, que se inclinando à frente atrás adiante quase desapareceu". É simples. É quase como Alice. No tabuleiro branco e preto e branco responder errrado com três erres aos caprichos do consenso. Eu, clown, denuncio o Rei sem ser preso, e sem deixar cair a criança que saberei cuidar, porque o céu me jogou ao colo. Aponte um outro que se equilibre como um pino de boliche sobre o qual atiraram bolas de ferro esferas de ferro e fogo. Aponte um outro mais esperto que o bobo. Aponte um outro que saiba dar de mamar sem ter tetas e cuja arte inclui todas as negativas e todas as improváveis inclinações aparentemente sem saída. Aponte um outro que dê tchau ao teu cumprimento com tanta elegância, e sem deixar cair a criança. Aponte um só. Aponte um único mais esperto que o clown que de ti se despede, sem pressa alguma e sem pesar.












Marcelo Novaes