O bardo anterior ao bardo















Gwion vestia uma batina vermelha e conhecia novecentas lendas. A qual outro bardo [antigo ou novo] isso se aplicaria?! Ele sabia dos salgueiros e das madressilvas. E ironizava o saber dos monges, contando anjos como agulhas perdidas em um palheiro, com seus mantos rotos, curvados em seus poleiros. Gwion merece ser louvado como o primeiro entre os grandes bardos, antes de William, antes de João, antes de Carlos Drummond. “Gwion, teu nome é esplendor”, assim deixei escrito na epígrafe do livro que te dou, como bom amigo. E as lendas que Gwion conhecia só eram menores que os milhares e miríades de pérolas e segredos que ele sabia, sobretudo depois de comer seus cogumelos: psilocybes. A partir dali, ele via árvores batalhando combatendo no chão seco e sem esterco e jóias rutilando no Inferno. Psilocybes. Essa a única ajuda que Gwion tinha, sendo o bom bardo da vermelha batina e verbo amargo, de cuja boca os versos prosperavam e as lendas saíam inteiras, com pontas de lanças e mil cabeças. Gwion era o nome dele, o bardo vermelho, da batina encarnada encardida ardida, antes de Carlos Drummond, de Cabral ou Hilda.












Marcelo Novaes