Minha alegria, hoje, é um copo d’água, ao lado da cama. Não pensarei no antigo problema. Não julgarei um cadáver. [Há mais paz entre nós dois, do que jamais houve]. A compreensão que vem do erro talvez seja a mais forte. Por ter abandonado o navio no meio do baile, saltado ao mar, e vir nadando, em plena noite. Por ter se amparado no farol, enquanto lanchas-de-busca [e aviões-de-caça] te rastreavam. Por ter visto a água salgada virar luz prata ao teu olhar, sobrepujando a ganância dos piratas [e dos que, no navio, permaneceram, ao som da música]. Por divisar, na chegada à praia [com pouca areia], o muro de pedra atrás do qual haveria de se dar a ver [a si mesma e para o cão que te esperava]. A compreensão que vem do erro talvez seja a mais natural. E de retomar o seu colar de erros [e todo o corolário que, de um erro, se há de esperar] não tenho mais a intenção. [Tampouco irei chorar sabendo dos encontros entre Cristo e Satanás]. Minha alegria hoje é um copo d’água, ao lado da cama. Nenhuma soma de qualidades ou virtudes. Mas a sua própria busca [é o que basta]. O jeito como respira [parece música]. O jeito como me inspira vê-la rediviva, depois de quase morta [por minhas dúvidas, por suas dívidas]. Não que eu me contente com a experiência imediata. Não, não. Não é tão simples. É algo que vai mais longe: Lança que Alcança o Vão entre o Bem e o Mal, e Os Transpassa [Imperfeita Criação de Deus a Suscitar Trapaça e Revisão, Revisão e Trapaça]. A compreensão que vem do erro talvez seja a mais legítima [fórmula de inspiração mefistofélica: vida na morte, morte na vida; movimento – contratempo, antirrepouso – que impulsiona à frente o lerdo, para si mesmo perigoso]. Não que eu me contente com a experiência imediata. Não, não. Não é tão simples. É algo que vai mais longe: é olhar o sol de frente, sem piscar e ver, do chão, se levantar Divina Sombra [Pecado e Contrição]. [Contraponto. Ponto de escolha. Alavanca]. Impulso para se buscar recurso para alguma liberdade implícita, na brecha da luta entre Devas e Asuras, entre os Titãs e os Anjos Puros. [Segredo Indescritível, Fato Inescrutável: abarcar, em um só Tempo – Inabarcável – Colisão e o Laço Consanguíneo entre tais Anjos: Bons e DeCaídos]. [Conciliar a Colisão e o Laço Consanguíneo de Bem e Mal, na Criação]. A compreensão que vem do erro talvez seja a mais lúcida [serpente arrastando ventre em solo quente e quente chão; e se levantando em fogo e Sarça Ardente: rápida e ríspida Visão]. Palavras levadas aos céus como incensos: em piras de fogo, lavadas em fogo [em água de lavanda, hortelã e cânfora, sobre madeira de sândalo], como Luz Manifestada. [Aprumai-vos, homens desavisados, da Naja Real, com olhos chamejados! Precavei-vos e defendei-vos da Naja Real, vencendo – e transluzindo – o Mundo Opaco!] [E vede a luz que vem, do céu, caindo...]. Palavras lavadas e levadas aos céus, em fogo e sagradas promessas. A despeito das águas presas nas montanhas. A despeito dos laços que nos detêm aos básicos instintos. A despeito do mercúrio que vaza, das indústrias, nos riachos. A despeito dos céus estrelados e vertiginosos [com cem mil olhos], que nos laçam ou paralisam. A despeito dos monstros [alados, espectros, ofídios]. [Palavras lavadas aos céus em chamas canforadas]. Não que me baste a experiência imediata. Não, não. Muito longe disso. Mas o espaço para o cabo de aço no fundo da agulha [senão, para o camelo]. Um espaço no Funil, na luz do invólucro por onde passa o fio. Elétrico. [Fogo Secreto. História Sagrada – Ofídico-Solar, Ambígua –; Veto que nos Compele aos Sagrados Votos]. Talvez o aprendizado maior se dê nesses planos de referência correlatos: o Alto e o Esgoto, o Esgoto e o Alto. [Escolha e Tensão no Mundo: Unidade Paradoxal]. Por isso mesmo, hoje minha alegria é um copo d’água, ao lado da cama. [Que não irei beber, antes de acordá-la]. [Talvez o dividamos. Talvez saldemos – um perante o outro – tudo o que não fomos]. Não que eu me contente com o instante. Não é tão simples. Eu atravesso o instante. Levanto o copo d’água à minha frente e o divido em dois pares de bocas e olhos, que se atravessam em seus nomes e em seus erros, para o Lugar que Está Depois e Antes. [O Lugar que É]. A compreensão que vem do erro [e do erro mútuo], talvez seja a mais forte. [O Drama Central que Anima a Humanidade].
Marcelo Novaes