Olhos como céus














Deixe que eu passe sal em suas feridas. Eu me reconheço em cada uma delas. Em cada bem. Em cada mal. Deixe que eu as suporte na dor que te vejo exprimir enquanto eu salgo estas feridas. Seis mil quinhentas e duas. Eu me reconheço em cada porção e em todas. Em cada pústula. Em cada sol desmembrado em corpo. Em cada leito enlameado em sangue e soro. Em cada ventre inchado de pus e álcool. Deixe que eu assinale, com lirismo, meu zelo e meu dolo, em cada centímetro quadrado de dor, de medo, de asco. Você mesmo montou seu Presépio. E Eu Sou o Zelador. Deixe que eu salgue cada milímetro cúbico de sangue, e depois cuspa pra longe. Pro curral. Pro canil. Pro pasto. Lembre-se sempre da vara de porcos atirados ao penhasco. Eram mais de mil. Eu cuspi fora depois de um gesto largo e um grito que mais pareceu malogro. Mas era um longo apito e um pito aos malditos que relutam em reconhecer um Santo. Deixe que eu salgue as feridas e as seque e te alivie os medos e os passos, como se, sob eles, eu colocasse o meu próprio manto. Da dor do ventre, deixe que escorra mel e um canto casto. Deixe que mil abelhas pretas e vermelhas te piquem o braço. Isso para aprenderes a dialogar consigo mesmo, a interiorizar o diálogo na hora do aperto, quando te envolvem algema, grilhão e laço. Deixe primeiro que te salgue e, só depois, quando já te conheceres bem [onde ninguém te vê nem mais te ouve, no silêncio absurdo das noites], eu te aplique meu elixir vermelho. O bálsamo de fogo. Que aviva o céu no olho e o olho no céu. E cicatriza o sonho. Ainda mais que o mel.













Marcelo Novaes