Uma palavra foi lançada pelo Pleroma, acima do espaço-tempo, para atravessar camadas e camadas de Erro. A Palavra fora gerada acima do pensamento, acima das névoas da beleza, e de toda angústia e terror gerados nas muitas esferas-de-pensamento atreladas ao Erro. A Palavra-Verbo lançada pelo Pleroma é o Pensamento acima do tempo-espaço. Acima das esferas dos Éons e deuses arquitetos, que sonham ordenar leis sendo, somente, artíficies menores suscetíveis às refrações da Verdade e níveis de erro compatíveis às suas próprias esferas e alcances relativos. Quando se imaginam senhores, sendo servos de suas próprias angústias e dos servos que lhes obedecem, são Arcontes. Jeová é um arquiteto que sonha [ou ambiciona] ser Deus. Mas está tão abaixo do Pleroma [ou da Verdade] quanto o Crime o está da Graça. Esquecimento da Verdade, Angústia e Engano são apanágios de Jeová, como de todos que o cercam. É só observar com quem Ele dialoga e com quem disputa, para conhecer-lhe a [baixa] estatura.
O Verbo paira sobre os Arcontes, paira sobre o erro e os terrores. A Plenitude do Pleroma não os engloba [angústia e seu corolário], mas os derruba e os engole. Transcende-lhes o alcance, por estar Acima deles.
O esforço do Verbo de aceder às baixas esferas tornou-O suscetível à perseguição do engano. Ele se viu envolto em Trevas, ainda que estas não pudessem penetrá-lo, mas afligir-Lhe. É da natureza das Trevas o Gozo na Aflição [ou em gerá-la]. As Trevas se regozijam no Erro. A causa do regozijo é a Inveja. Quem é Alfa e Ômega, um dia perecerá. [Quem tem ouvidos ouça!]. Não pode alguém que é “princípio e fim” não ter fim, nem ter fim o seu reinado. Seus dias são suas ocupações e erros, [mal-]disfarçados em beleza. O Pleroma repousa sobre tudo isso, e avança em Verbo e Emanação.
Se o Erro fora d’Ele emanado [Pleroma], foi pela astúcia e má-percepção de cada Errante-Errado.
Enquanto vagam os adultos, adoecidos pela sofisticação dos [maus] brinquedos, deixem que as crianças O percebam. Assim disse o Verbo. E outras coisas disse para o nosso proveito, resgatando, do Erro, alguns. Só os que quiseram. Pois a muitos agradam os jogos-de-poder de Jeová e suas Hostes. A muitos agrada a manifestação-da-ilusão dos Arcontes e sua presunção de Lei e Plenitude. O escopo da lei dos Arquitetos Menores é um círculo de engano, dor e sofrimento.
Mas o Verbo [Vivo] procura a cada um em seu lugar, fala a cada qual seu Livro Completo. Seu Nome: consoante a vogal que lhe é dada conhecer. Cada Nome consoante o Som Original, emitido do mais Alto [Completude, Pleroma, Totalidade]. Misericórdia é Isso: atravessar mansardas de Solidão e Ilusão auto-perpetuadas no pacto entre criaturas e Éons-em-Erro [Arcontes], para dizer Palavra. Não importando o sofrimento, a proscrição, isolamento e Cruz, como Emblema Exaltado do Duplo Movimento [Ascensão após Descida]. Misericórdia também é isso: Descer até os Arcontes debaixo [os que regem as ínfimas esferas] para lhes repetir a Palavra, antes de voltar à Totalidade. O Verbo é só um dos nomes da Misericórdia: Imperturbável em sua Graça. Ainda que sue e chore, como homem. “No mundo tereis aflições, mas Eu venci o mundo, e Eu não sou do mundo.” O Verbo não se veste de Erro e Ilusão, mesmo quando desce.
Os que caminham sobre a Terra são como se estivessem sob ela, tamanha a Escuridão que os cerca. Jeová e os propagadores de Lutas e Guerras causam tamanho cerco que a [quase] todos engolfam. O refúgio não está ali, nem aqui, nem em mudar de moradia; mas em ouvir, em si, a Palavra. E conhecer-se, a si, pelo Nome com que foi chamado, desde o Pleroma. O Nome Único e Intransferível.
A Misericórdia do Verbo também nisso consiste: em se interpor à Rivalidade dos Éons e Arcontes, sempre em disputa, sempre com inveja de suas respectivas [e menores] arquiteturas. Sempre em disputa: em suas sanhas, senhas e ardis.
A Misericórdia do Verbo também está em não se impor. Ele diz a Palavra. Alguns, dela se enchem e esperam, confiantes. Outros a temem, como vasos prestes a rachar, familiarizados com os colossos e jogos-de-cena dos arquitetos menores [Arcontes, Éons, Perpetradores-de-Erros]. Luz Pura ou Vocalizada parece-lhes “aguda demais”, e eles se inquietam. Procuram refúgio nas cavernas. Ou em subsolos secretos: íntimos. Mas nada que esteja oculto um dia não lhes será revelado. Já o foi, de fato. Estes se magoam, não como aqueles que se desilusionam com o [mau] espetáculo-do-mundo, mas como que afligidos pela Luz [e o Nome] que lhes Ilumina as imposturas-urdidas-em-sonhos. A Misericórdia do Verbo também consiste em tolerar seus esperneios e estultície.
Alexandria e Edessa choravam. Jerusalém ainda chora, por teimosia. Diriam do Verbo que Ele traiu seu Pai. Dirão do Verbo, que Ele traiu “Seu Povo”. Ocorre que o Verbo promana do Todo. Ocorre que o Pleroma contempla [indistintamente] todos os povos. Só Arcontes iludidos [e Iludidos Arcontes] fazem Alianças Menores. Por isso, Jerusalém ainda chora. Dúvidas, instabilidade e divisão não promanam do Todo nem do Pai, mas do Erro e de seus perpetradores. A “Divisão do Verbo” consiste em “Acolher que O acolhe” e “deixar em Paz [deixar fugir, em aparente paz] aquele que d’Ele foge”. Isso também é uma das Faces da Misericórdia. Quem tem ouvidos ouça.
A Misericórdia do Verbo [Oh, Jerusalém!] também consiste em Salvar alguém no sábado, e outro no domingo.
Por enquanto, residimos na Deficiência: este Reino de Éons e Arcontes auto-extasiados no tempo: Alfa e Ômega. Mas não nos regozijamos na Deficiência: expomos nossas deficiências, pedimos ao Verbo que lance Luz e Nome a cada porção de deficiência-em-nós. Por isso, embora aqui [por enquanto], não somos daqui. Por isso, embora na Deficiência, não A justificamos, nem n’Ela nos regozijamos, como os Arcontes que d'Ela se envaidecem quando nos enredam. Somos os peixes colhidos à Rede do Verbo. Permeáveis à Luz [e ao Nome] de Seu desnudamento e de cada um de nossos erros compactuados com as leis menores que cumpríamos [quase cegos ou fascinados]. Por estarmos nus, somos os alvos de Sua Misericórdia.
Que nossos Nomes reverberem no Pleroma, muito acima deste Reino. No Tempo-além-tempo. Pelos séculos dos séculos.
Marcelo Novaes