Ver














Desde que você chegou aqui e se debruçou nesta janela, redescobrindo as coisas daqui de perto [os cabeleireiros, os açougues, a lavanderia, estas coisas para uso de nós mesmos], trazendo seu filho e seu cigarro entre os dedos [“ele fuma desde os nove”, você me disse], e esses fios todos emaranhados nos fones de ouvido, como se a mim me fossem dados [“você há de consertá-los: meu filho vê vultos, quando a música é por eles filtrada”]; desde que você chegou me dizendo que teu pai está ferido há muito tempo, desde que nos separamos; desde então e desde tudo, eu também me debruço sobre cada um desses poços. E de uma coisa sei, que não é casa, não é causa, não é vista da sacada, não é vulto avistado [com olhos abertos ou fechados]: se alguém não nos enxerga em toda nossa complexidade, este alguém não nos enxerga em nada.












Marcelo Novaes